Por Ailton Francisco da Rocha
(afrocha@infonet.com.br)
Laura é o nome do nosso anjo teimoso, uma jovem autista com vinte e poucos anos, de beleza incomum, cabelo volumoso e ondulado, pele morena e olhos castanhos amendoados. Pequena para a idade, mas grandemente graciosa. Gosta especialmente de música, dança e de ter contato com animais e plantas, especialmente de observar os pássaros. Adora passear, ouvir conversa entre adultos, apesar de não saber falar. Possui uma memória fotográfica esplendorosa, como também sensibilidade muito aguçada com relação ao choro de criança, ao ponto de quando ouví-la chorando, também chorar. Laura marcha conforme o ritmo de um tambor desconhecido que atende a um mundo muito diferente do nosso.
O autismo foi descrito quase simultaneamente por Leo Kanner e Hans Asperger nos anos 40, mas o primeiro parecia vê-lo como um desastre consumado, enquanto o segundo achava que podia ter certos aspectos positivos e compensatórios – uma “originalidade particular de pensamento e experiência, que pode muito bem levar a conquistas excepcionais na vida adulta”.
A causa do autismo tem sido motivo de discussão. Sua incidência é de um em mil, ocorrendo em qualquer lugar do mundo com características notavelmente constantes até nas culturas mais diferentes. O autismo é um mistério sobre o qual a nossa ciência ainda sabe relativamente pouco.
Passados os primeiros momentos da revelação de um problema sério, necessário se faz aprender a conviver com ele como se fosse algo natural. É preciso continuar vivendo, paralelamente em busca de uma solução. Foi assim que aconteceu na situação de Laura, filha única, cujas limitações já puderam ser observadas logo nos primeiros dias de vida e só foram realmente diagnosticadas quando ela tinha cerca de três anos, após realizar uma bateria de exames e termos consultado à época os melhores especialistas na cidade de São Paulo.
É verdade que, curiosamente, a maioria das pessoas fala apenas de crianças autistas e nunca de adultos, como se de alguma forma as crianças simplesmente sumissem da face do planeta. Mas embora possa haver de fato um quadro devastador aos três anos de idade, alguns jovens autistas, ao contrário das expectativas, podem conseguir desenvolver uma linguagem satisfatória, alcançar um mínimo de habilidades sociais e mesmo conquistas intelectuais. O que sabemos de fato é que pessoas autistas não são simplesmente incapacitadas, muitas têm, na verdade, capacidade diferente.
A caminhada exige paciência, perseverança dos pais, familiares, amigos e professores e de todos aqueles que se empenham para que ela se comunique com o mundo. Muitas competências se unem para tirar o autista do mundo fechado em que vive.
Nossa origem humilde talvez tenha nos ensinado a não desanimar e a superar obstáculos com empenho redobrado. Aprendemos, ao longo da vida, que é preciso não perder a esperança. Força de vontade pode ser um remédio milagroso.
Vivemos muitos anos nos perguntando: “Por que nós?” Sempre fomos pessoas generosas, livres e de bons costumes. Várias respostas passaram por nossas mentes, mas uma delas, que considero bastante válida, é que só as pessoas especiais conseguem agüentar a dor e a felicidade de ter uma filha diferente. É preciso força para assumir uma tarefa que exige dedicação cotidiana.
Hoje, essa pergunta já ficou para trás. Acreditamos que não devemos parar nunca. É sempre preciso caminhar, olhando para frente, deixando o passado no seu devido lugar,e, construindo o futuro.
Às vezes, a família esconde o filho portador de necessidades especiais, tentando evitar a discriminação e o preconceito. É muito duro enfrentar a incompreensão, mas a fuga não é o caminho certo. É preciso olhar de frente quem de lado nos olha e mostrar que todos os seres humanos têm o direito a usufruir as coisas boas desse mundo.
Podemos apenas especular que o autismo de Laura seja uma missão espiritual, um contrato de alma que ela fez para abrir os corações das pessoas para elas mesmas, para as outras e para Deus.